Ari Clemente, uma entrevista

Quando comecei, como jornalista, a realizar meu resgate histórico com antigos jogadores, em 2010, tive a oportunidade de entrevistar alguns que atuaram no expressivo time do Corinthians da década de 50. Fiz matérias com o Nardo, Cabeção, Julião, Jackson, Zague, Benedito e Aldo, além do Sr. Iracy, que defendeu a equipe de basquete. Infelizmente não consegui entrevistar outros remanescentes do futebol como o Índio (indicado pelo saudoso historiador flamenguista Bruno Lucena) e o Walmir!


Em março de 2021 tive a oportunidade de entrevistar o Ari Clemente, de quem consegui o contato através do amigo jornalista e pesquisador Celso Dario Unzelte, completando a saga. Pelo Corinthians, Ari atuou em 297 partidas (quase 300), pois fiz questão de incluir dois jogos dele em 10/05/1958, pelo Torneio Início. Na década de 50 teve 128 apresentações, de 13/04/1958 a 11/12/1960. A última vez que atuou com a camisa corinthiana foi no dia 06/12/1964.

Dedico esta matéria com o Ari Clemente ao meu saudoso pai Mário, que faleceu com 80 anos no dia 21/01/2021, o maior corinthiano que conheci e que me passou a paixão pelo Sport Club Corinthians Paulista, especialmente relacionada aos inesquecíveis anos 50.

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À esquerda, Mauricio Sabará; à direita, Ari Clemente


MAURÍCIO SABARÁ:
Ari Clemente, você nasceu em Araraquara (SP) no dia 07/01/1939. Conte como foi o seu início no futebol na cidade interiorana. Sempre jogou no setor defensivo?


ARI CLEMENTE: Não, inicialmente comecei como meia-esquerda, jogando na várzea.

MS: Com quantos anos você chegou a São Paulo? E explique quando e como surgiu a oportunidade de jogar nos Infantis do Corinthians. O ponteiro direito Roberto Bataglia atuava com você?

AC: Cheguei aos 15 anos em São Paulo, e assim que cheguei fiz uma inscrição para realizar testes, depois fui para o Juvenil, onde fui bicampeão e assim surgiu a vaga para o profissional. Roberto Bataglia atuou, sim, comigo.

MS: Sua estreia como jogador profissional aconteceu em 13/04/1958, um empate do Corinthians com o Santos por 2 a 2 no Pacaembu, partida essa válida pelo Torneio Charles Miller, com o time corinthiano sendo campeão pela terceira vez no jogo seguinte, ao golear o São Paulo pelo placar de 5 a 1. Tem recordação das suas duas primeiras apresentações e da conquista mencionada? Comente sobre o treinador da equipe, o ex-jogador e ídolo Cláudio Christovam de Pinho.

AC: Sim, eram jogos muito importantes, pois era como um divisor de águas, caso fosse mal talvez não teria sequência na equipe principal. O Cláudio Christovam de Pinho veio após a saída de Oswaldo Brandão, que inicialmente tinha me promovido ao time principal (a última partida que Brandão treinou o Corinthians em sua primeira passagem aconteceu em 05/01/1958, vitória corinthiana por 3 a 0 em cima do Audax Italiano do Chile no Parque São Jorge), mas foi o Cláudio que realmente me deu a oportunidade de atuar.

MS:
A partida que costuma ser mais citada da sua passagem pelo Corinthians é justamente contra a Seleção Brasileira, em 21/05/1958, a última no Brasil, com os brasileiros seguindo à Europa para disputar a Copa do Mundo da Suécia. Você, que disputava seu sétimo jogo como profissional, era um lateral-esquerdo e quarto zagueiro de físico muito forte, ficando marcado por causa de uma dividida com o Pelé que o levou à contusão. O próprio santista diz que não foi culpa sua, tratando-se de um lance casual do jogo. Conte sua versão sobre o que ocorreu.

AC: O jogo estava sendo disputado durante a noite, com chuva e teve uma falta na ponta-esquerda para a Seleção Brasileira. Pepe, que batia forte na bola, chutou a pelota e ela veio deslizando, e eu, como defensor, fui afastar a bola. Na verdade quem me chutou foi o Pelé, que acabou levando a pior.

MS:
Defina como era o seu estilo de jogo.

AC: Jogo forte, marcando em cima e jogando simples, sem inventar.

MS:
Em junho de 1958 o Corinthians venceu o Torneio Brasília, disputado na mesma época da Copa do Mundo. A competição era em homenagem à futura capital do Brasil, inaugurada em 21/04/1960. Por sinal foi o último título do vitorioso time corinthiano dos Anos 50. Relembre essa conquista um pouco esquecida pela geração atual.

AC: Foi um torneio disputado em Goiânia, fizeram uma seleção do Estado de Goiás para jogar contra o Corinthians.

MS:
O Corinthians fez sua primeira excursão à Europa em 1952, retornando ao Velho Mundo no ano de 1959, último grande feito do time dos Anos 50. Era a primeira vez que você saía do Brasil. Boas recordações?

AC: Sim, foi a primeira vez que saí do Brasil e as recordações são as melhores, conheci países como a França, Holanda, Alemanha, Bélgica, Portugal e Espanha. Foi uma experiência única!

MS:
Conforme já foi dito, você estreou no time profissional do Corinthians em 1958. Era o fim de um período vitorioso, mas mesmo assim teve a oportunidade de jogar com grandes jogadores, muitos deles remanescentes das grandes conquistas. O que tem a dizer de nomes como os de Gylmar, Cabeção, Idário, Oreco, Roberto Belangero, Luizinho, Rafael Chiarella, Zague e outros que você queira lembrar?

AC: Joguei com todos, gostaria de ressaltar o jogador Índio. Eram jogadores fora do normal e foi um prazer imenso jogar com eles, além de serem grandes amigos, uma passagem inesquecível.

MS:
Sendo lateral-esquerdo, cite os ponteiros direitos que enfrentou em campo, se possível mencionando as características de cada um. Qual deles foi o mais difícil que marcou?

AC: Garrincha, Joel, Dorval, Julinho Botelho, Maurinho e Faustino (Araraquara) que mais me trazem lembranças, jogadores que faziam diferença e eram muito habilidosos. Sem dúvidas o mais difícil foi o Mané Garrincha, o cara era diferente.

MS:
Caso também queira, acrescente os mais difíceis adversários que teve quando atuava como zagueiro.

AC: Garrincha.

MS: No dia 29/06/1961 disputa sua única partida pela Seleção Brasileira, vencendo o Paraguai por 3 a 2 (gols dos flamenguistas Joel, Dida e Henrique) no Maracanã, sendo você e o goleiro Gylmar os representantes corinthianos no jogo. O que tem a dizer de um momento do qual acredito ter sido bem marcante na sua carreira? Teve esperança de estar presente na Copa do Mundo de 1962?

AC: Foi um momento único representar a Seleção Brasileira, algo inexplicável. E tinha sim esperança, porém, devido a uma contusão, creio que acabou esse sonho.

MS:
Outro título que obteve em sua passagem pelo Corinthians foi a Taça São Paulo de 1962, que muitos, por engano, confundem com a famosa Copa São Paulo de Futebol Júnior, surgida em 1969. Da mesma forma que o Torneio Brasília, se disputou na mesma época de uma Copa do Mundo, da qual o Brasil também venceu. Foi uma conquista marcante? Fale sobre a dupla atacante formada por Ney e Silva.

AC: Com certeza! Ney (pai de Dinei) era fora de série, creio que se não tivesse se lesionado, seria um dos grandes nomes brasileiros, arrisco até falar que jogava como o Pelé. Silva era centroavante, muito habilidoso.

MS:
No Corinthians você conviveu com três presidentes históricos, Alfredo Ignácio Trindade, Vicente Matheus e Wadih Helu. Pode dizer como era o perfil de cada um?

AC: Pra mim foram todos importantes. Alfredo Ignácio foi o presidente que estava quando fui promovido ao profissional. Vicente e Wadih também foram ótimos diretores, nunca tive problemas.

MS:
Fale sobre a torcida do Corinthians.

AC: Muita coisa mudou, a torcida era menos violenta, mais unida, mas o espetáculo é o mesmo, a torcida dava e dá show.

MS:
Qual foi o motivo da sua saída do Corinthians no início de 1965? Foi pouco antes de o time disputar e vencer o Torneio Pentagonal de Recife, com você quase jogando com nomes como os do consagrado Dino Sani e do jovem talentoso Rivellino.

AC: Devido à troca de dirigente e treinador, como era um dos mais antigos do elenco e também apareceu uma proposta boa do Bangu, resolvi aceitar.

MS:
É contratado pelo Bangu, onde, em 1966, conquista seu único título estadual. Faça um resumo sobre sua passagem em Moça Bonita de 1965 a 1970, disputando exatos 150 jogos. Como foi a conquista do Campeonato Carioca e a famosa briga campal contra os jogadores do Flamengo na decisão, que impediu a volta olímpica do time campeão? Almir, que você enfrentou quando ele jogou no Vasco, Boca Juniors, Santos e depois como flamenguista e jogador do America do Rio, além de ter atuado ao seu lado no Corinthians em 1960, era um craque, mas também um jogador raçudo e bom de briga.

AC: Foi uma passagem muito importante na minha carreira, um título muito especial. A briga ocorreu devido a alguns dirigentes do Flamengo ficarem bravos pelo placar e também algumas lesões dos jogadores rubro-negros e assim pediram para os seus atletas baterem, mas foi algo que ficou somente no jogo. Após a final saímos para almoçar e o Almir estava junto.

MS:
Qual foi o treinador mais marcante que teve, seja do Corinthians ou do Bangu?

AC: Justamente a Final de 1966 contra o Flamengo acredito que foi o mais marcante.

MS: Mais três perguntas relacionadas ao Bangu. Consegue definir como foi aquele que parece ter sido o seu único gol profissional, em um amistoso contra o time carioca Porto Alegre no dia 20/06/1965, que o Bangu venceu por 3 a 2, com o segundo tento sendo de sua autoria? Lembra qual foi o motivo da sua expulsão quando enfrentou o Corinthians pela primeira vez, no Pacaembu, em 17/02/1966, pelo Torneio Rio-São Paulo? E a experiência de enfrentar novamente a Seleção Brasileira, em duas partidas, no mês de maio de 1966?

AC: Zizinho, cara fora do normal, organizou o time certinho para ser campeão.


O Bangu de 1966. Em pé: Mário Tito, Ubirajara, Luis Alberto, Ari Clemente, Fidélis e Jaime   –    Agachados: massagista Pastinha, Paulo Borges, Cabralzinho, Ladeira, Ocimar e Aladim. Fonte: Memórias do Esporte.

MS:
É possível dizer qual foi o jogo da sua vida? Quem sabe seja algum dos que citei.

AC: O gol não me lembro de ter marcado, pois como eram muitos jogos, acaba se tornando impossível lembrar de todos. A expulsão contra o Corinthians foi devida a uma discussão com o juiz. E enfrentar a Seleção sempre é um prazer, grandes nomes jogando, me sinto orgulhoso.

MS: Depois de sua marcante passagem pelo Bangu, ainda defenderia o Saad de São Caetano do Sul, onde encerraria a carreira de jogador em 1971. O que tem a dizer sobre esse breve período?

AC: Foi um final de carreira excelente, não tenho do que reclamar, um clube muito respeitoso e honesto.

MS:
Soube do bem informado torcedor entusiasta Pedro Luiz Boscato que você teve um irmão que também jogou futebol.

AC: Meu irmão Laerte, assim que fui para a Europa, ele ficou no Corinthians para assinar o contrato, mas acabou que não deu certo.

MS:
O que fez depois que encerrou a carreira de jogador? Teve vontade de ser treinador?

AC: Não, depois que encerrei a carreira como jogador fui trabalhar no Banco Safra, onde fiquei por 20 anos e aposentei.

MS: Acompanha o futebol atual? Qual é a sua opinião sobre o Corinthians depois que parou de jogar, havendo tantas fases?

AC: Acompanho sim, sou corinthiano de coração, pois comecei lá, depois que parei de jogar houve tempos de jejum, mas durante os últimos anos só glórias.


Corinthians em 1959. Em pé: Ari Clemente, Olavo, Walmir, Cabeção, Oreco e Roberto Belangero   –    Agachados: Miranda, Paulo, Zague, Luizinho e Tite. Memórias do Esporte.

Foto principal: Tardes de Pacaembu
 

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