Corinthians, o principal clube brasileiro até 1959

por Mauricio Sabará (autor convidado)

Por muitos anos, insisti que o Sport Club Corinthians Paulista era o principal clube brasileiro até 1959, quando teve seu último grande momento dos anos 50, a sua segunda excursão à Europa. Infelizmente, muitos corinthianos não têm tal conhecimento, perdendo discussões fáceis para os rivais, que também desconhecem tal passado. É muito bonito quando o torcedor cita o que representa o Corinthians, através das suas origens humildes, mas ao se apegar sempre a isso dará a impressão (com todo o respeito à agremiação que citarei) de ser uma Ponte Preta da capital; apega-se a tal argumento para querer estar por cima.

O Corinthians, desde o início, sempre quis estar entre os grandes, tendo de se impor em campo com resultados para conseguir tal honraria. Dessa forma, eu, Maurício Sabará, através de um levantamento inédito, provarei com dados precisos o que sempre argumentei: o Sport Club Corinthians Paulista foi a principal força do futebol brasileiro até 1959, pois a partir da década de 60, devido à fila nos títulos estaduais, perdeu bastante o seu espaço para a concorrência.

Estadualmente: quando o Corinthians foi campeão paulista de 1954 (títuo decidido em 06/02/1955), contabilizava 15 títulos estaduais. Quem mais se aproximava dele era o maior rival, o Palmeiras, com 12 conquistas. Até 1959 o São Paulo teve mais um título (1957), tendo no total 8 (contei o de 1931). O Santos obteve mais três, totalizando quatro, pois já tinha sido campeão em 1935. E a Portuguesa de Desportos possuía dois, vencidos pela APEA em 1935/36. Ou seja, os corinthianos eram os reis do Campeonato Paulista, supremacia recuperada em 1983, ao superar os palmeirenses, que tinham passado à frente na época do jejum.

Só para entender melhor, até 1929 o Clube Atlético Paulistano era o principal clube paulista e provavelmente brasileiro, pois era o recordista em Paulistões, além de ser a primeira equipe do país que excursionou para o continente europeu. Muito deve a Arthur Friedenreich, que durante mais de dez anos jogou pelo time, sendo considerado o melhor futebolista da época.

Pois bem, sua última partida de futebol aconteceu em 15/12/1929, quando foi campeão paulista pela LAF. Depois de levantar 11 títulos, passou a se dedicar apenas aos outros esportes. A partir daí, dos clubes ainda existentes no futebol, o Corinthians era o recordista em títulos paulistas (7), superando o antigo rival do Jardim América em 1941, ao atingir 12 conquistas. Tudo foi um passo a passo no Paulistão. Começou em 1913, foi campeão no ano seguinte pela LPF, feito repetido em 1916 e na temporada seguinte já disputava contra os principais times do Estado, sendo considerado um dos grandes estadualmente. Isso foi confirmado em 1922 com o título paulista do Centenário da Independência, conquistado no último jogo contra o Paulistano em 04/02/1923.

A Taça Cidade de São Paulo

Entre 1942 e 1952 foi disputada em São Paulo a Taça Cidade de São Paulo. Podiam disputá-la os times que no Campeonato Paulista do ano anterior tinham ficado entre os três primeiros. A regra para conquistá-la em definitivo era vencê-la 5 vezes alternadas ou em 3 anos consecutivos.

Nos anos 40 era conhecida como “Taça Maldita”, pois quem a ganhava não era campeão estadual. O Corinthians foi bicampeão em 1942/43 e 1947/48, ganhando-a em definitivo no ano de 1952, após uma goleada de 5 a 1 em cima do Palmeiras.

Vale lembrar a vantagem de ter três tricampeonatos paulistas contra um do Palmeiras, preservada até hoje.

Interestadualmente

Para entender melhor a questão interestadual, é sempre bom deixar claro que até a década de 60 o futebol brasileiro se concentrava em dois estados: São Paulo e Rio de Janeiro. Existia, sim, qualidade em outros centros, pois Minas Gerais, Rio Grande do Sul e tantos outros tinham grandes jogadores, estaduais acirrados e muitos jogadores engrossavam as fileiras dos grandes paulistas e cariocas (para muitos deles era até um sonho a transferência), principalmente por causa do Campeonato Brasileiro de Seleções, quando excelentes talentos eram descobertos. Mas as seleções Paulista e Carioca eram sempre mais fortes, com as convocações da brasileira na maioria das vezes voltada para quem atuava nelas. A visibilidade era maior.

O Corinthians era sempre muito requisitado em excursões Brasil afora, pois sempre foi considerado um dos grandes times do país, inclusive inaugurando estádios. O batismo aconteceu em 01/12/1918, quando em seu primeiro jogo interestadual derrotou o Flamengo na Rua Paysandu pelo placar de 2 a 1, sendo muito elogiado pela imprensa carioca. Outros feitos aconteceram, como o título de Campeão dos Campeões (está na letra do hino) de 1930, derrotando por duas vezes o forte Vasco, tanto em São Paulo quanto no Rio.

Em 1942, o time venceu de forma invicta o Torneio Quinela de Ouro, uma espécie de Rio-São Paulo, não tendo concorrente paulista e carioca. Mas é justamente no final de 1949 que surge o primeiro Torneio Rio-São Paulo oficial, realizado em 1950, com o Corinthians sendo o primeiro campeão, repetindo com o bi de 1953/54. Quem mais aproximou dele até 1959 era a Portuguesa de Desportos (campeã em 1952 e 1955), seguida por Palmeiras (1950), Fluminense (1957), Vasco (1958) e, novamente, o Fluminense (1959).

Está aí mais uma superioridade corinthiana que não pode ser desmentida, o maior campeão interestadual até 1959. Na verdade até 1964, com o Santos alcançando tal patamar através de um título dividido com o Botafogo. Inclusive continuaram empatados em 1966, com quatro conquistas, título esse que os dois alvinegros paulistas dividiram com o Botafogo e o Vasco.

Só um detalhe para finalizar a questão “interestadual”: como dito acima, o Corinthians sempre foi forte nacionalmente. Claro que o Campeonato Brasileiro é uma conquista importante, mas mesmo o time corinthiano só conquistando-o em 1990, era sem dúvida um dos grandes clubes brasileiros como vimos aqui. Devemos dizer que o Guarani era maior no Brasil que o Flamengo, por ter sido campeão brasileiro antes, em 1978, com o Mengo ganhando o seu primeiro dois anos depois?

Internacionalmente

Talvez esteja aí a questão mais importante, pois afinal de contas os que diziam que o Corinthians era um time sem passaporte internacional certamente desconhecem sua grandeza contra os times do exterior – o que vale para muitos corinthianos. Libertadores, principal torneio intercontinental, não deve ser usada sempre para determinar se um time é grande ou não internacionalmente, pois Fluminense e Botafogo nunca a venceram e nem por isso deixaram de realizar grandes feitos.

Desde 1914 o Corinthians começou a fazer bonito contra equipes estrangeiras. Antes de ser campeão paulista pela primeira vez, disputou seu primeiro jogo internacional contra o Torino da Itália, um time que não tinha títulos no país, porém, era conhecido pelo belo futebol praticado. Fez bonito em sua excursão a São Paulo, não tendo adversários à altura. Só teve trabalho mesmo com os corinthianos, bem elogiados por Vittorio Pozzo, que seria nas Copas do Mundo de 1934 e 1938 o único treinador bicampeão mundial. Disse ele que o elenco corinthiano tinha condições de jogar sem receio contra qualquer esquadra europeia, mesmo com as duas derrotas sofridas (3 a 0 e 2 a 1) – porém, no último jogo, no segundo gol italiano a bola bateu na trave e não entrou.

Entre 1929 e 1930 houve triunfos expressivos contra times da Argentina (3 a 1 no Barracas, 7 a 2 no Tucuman e 4 a 2 no Huracán) e da Itália (goleada por 6 a 1 contra o Bologna, primeiro jogo corinthiano que tem imagens disponíveis), além do empate em 4 a 4 com o Chelsea da Inglaterra e a goleada por 5 a 1 no Hakoah dos Estados Unidos.

O jogo contra o Barracas de Buenos Aires impressionou tanto o jornalista Thomaz Mazzoni, do jornal “A Gazeta Esportiva”, que ele fez questão de chamar os jogadores de mosqueteiros. A fama do Corinthians era tanta que acabou sendo o time brasileiro que, em julho de 1931, cedeu mais atletas para a primeira leva ao exterior, mais precisamente para a Lazio, de Roma.  Foram quatro atletas: Del Debbio, Filó (que depois seria o primeiro jogador brasileiro a ser campeão do mundo, pela Itália em 1934), Rato e De Maria.

Na década de 30, o jogo mais famoso foi o primeiro confronto com o Boca Juniors, que foi derrotado no Parque São Jorge pelo placar de 2 a 0.

Outros triunfos aconteceram nos anos 40, mas em 1948 ocorreram os maiores. Com duas vitórias pelo mesmo placar (2 a 1) no Pacaembu, o Corinthians foi o único time brasileiro que conseguiu derrotar as duas melhores equipes do mundo da época, que eram o River Plate (conhecido como La Maquina) e o poderosíssimo Torino, bem mais forte que em 1914, então tetracampeão italiano. Pra deixar claro, no mesmo ano o Vasco foi campeão de um torneio sul-americano em cima do mesmo River, porém, a partida terminou em 0 a 0, com o empate dando o título aos vascaínos por causa da melhor campanha.

Em 1951 aconteceu a primeira partida do Corinthians fora do Brasil, uma goleada por 4 a 1 contra um Combinado Uruguaio em pleno Estádio Centenário de Montevidéu, uma espécie de vingança da derrota brasileira na Copa do Mundo de 1950, já que a equipe uruguaia contava com três jogadores campeões mundiais.

O marco principal foi a primeira excursão corinthiana à Europa, entre abril e junho de 1952, na qual perdeu apenas seu primeiro jogo, por 1 a 0 para o Besiktas da Turquia, permanecendo depois invicto em gramados turcos, suecos, dinamarqueses e finlandeses. Um total de 15 confrontos que lhe rendeu a Fita Azul.

Uma goleada por 5 a 1 na Finlândia marcou a inauguração do Estádio Olímpico de Helsinque. Foi o início da maior invencibilidade de um time paulista contra equipes estrangeiras, permanecendo 32 jogos (25 fora do Brasil) sem perder, até fevereiro de 1954. A única equipe brasileira que está à frente é o Vasco, invicto em 34 partidas.

Um detalhe muito importante para comentar é que em 1952 o Corinthians foi vice-campeão da Copa Rio. Foi uma campanha espetacular no Pacaembu, goleando o Saarbrucken da Alemanha (6 a 1) e o Libertad do Paraguai (6 a 0), além da vitória por 2 a 1 no time do Áustria Viena. O ponto alto da campanha foi a vitória pelo placar de 2 a 1 (dois gols de Cláudio) de virada contra o Peñarol do Uruguai, que contava com os consagrados campeões de 1950, como Rodríguez Andrade (estava no Combinado em 1951), Obdúlio Varela, Ghiggia (autor do gol uruguaio) e Schiaffino. Porém, os uruguaios partiram para a violência, quebrando importantes jogadores como Murilo (nunca mais apresentou a mesma qualidade em campo), Goiano, Roberto Belangero e Baltazar, fazendo com que o Corinthians jogasse desfalcado nos dois jogos decisivos com o Fluminense no Maracanã, ficando em segundo lugar.

No ano de 1953 vem o primeiro título internacional, que é o Torneio de Caracas ou Pequena Taça do Mundo (Copa Marcos Pérez Giménez). O mais interessante é que os organizadores queriam um turno único, apostando que o campeão seria um time europeu, a Roma da Itália ou o Barcelona da Espanha. No entanto, o Corinthians venceu todos os adversários e a equipe local, fazendo com que a fórmula da disputa fosse alterada, tendo um segundo turno. E para a surpresa deles, novamente os corinthianos derrotaram todos, ganhando com méritos. Nem mesmo o Barça de Kubala resistiu! Luizinho foi eleito o melhor jogador do torneio.

Outras conquistas

Por três vezes o Corinthians venceu o Torneio Charles Miller (1954, 1955 e 1958). O mais marcante foi o de 1955, porque foi internacional, sendo tal conquista em cima do Benfica de Portugal, após vitória de 2 a 1 no Pacaembu, com o segundo gol anotado em cobrança de falta perfeita do capitão Cláudio, na qual a bola descreveu uma curva fantástica, sem chance para o consagrado goleiro Costa Pereira.

Outros triunfos internacionais aconteceram depois, sendo o mais marcante a conquista da Taça do Atlântico em 1956, uma espécie de precursora da Libertadores da América.

E, para finalizar, entre maio e junho de 1959 aconteceu a segunda excursão corinthiana ao Velho Mundo, tendo jogos marcantes, como a primeira partida em território francês (derrota por apenas 3 a 2 com o Stade Reims, que tinha Just Fontaine e Piantoni), o primeiro confronto com o Bayern de Munique (vitória por 3 a 2) e uma histórica vitória pelo placar de 5 a 3 em cima do Barcelona em pleno Camp Nou, contra nomes como Kubala, Evaristo de Macedo e Czibor.

Mauricio Sabará é jornalista, ex-apresentador do programa 100 Anos de História da Rádio Coringão e colunista do Site Meu Timão. Escreveu o livro Amilcar Barbuy – o Generalíssimo, sobre um dos primeiros grandes atletas da história do Corinthians.

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